Novos trechos de ‘conversas-bombas’

Em conversa gravada com Sérgio Machado, José Sarney também voltou a citar a proximidade do ministro do STJ César Rocha (amigo de Sarney) com o ministro do STF Teori Zavascki. Rocha é chamado por Sarney de ‘nosso cúmplice junto ao Teori’. Novos trechos de conversas de Machado com Renan Calheiros também foram divulgados

José Sarney e Sergio Machado: articulações para interferir na Lava Jato|ArquivoJosé Sarney e Sergio Machado: articulações para interferir na Lava Jato|Arquivo

Em gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, em março passado, reveladas pelo “Jornal da Globo”, o ex-presidente José Sarney afirmou a Machado que Dilma Rousseff teria “tratado diretamente sobre o pagamento” da Odebrecht para o marqueteiro João Santana, que trabalhou tanto para a presidente afastada como para Lula.

Em outro trecho, num indicativo de interferência na Lava Jato para tentar ajudar Sérgio Machado, investigado na operação, Sarney volta a citar (como já fizera na mesma conversa com Machado) a proximidade do ministro do STJ César Rocha (amigo de Sarney) com o ministro do STF Teori Zavascki. Sarney afirma que prefere tratar com Rocha,chamado por Sarney de “nosso cúmplice junto ao Teori”. Sarney também diz que César Rocha é “muito, muito, mas muito amicíssimo lá do tribunal” e que Rocha “fez muito favor pra ele [Teori Zavascki]”.

Já o “Jornal Nacional” divulgou, na sexta, conversa em que Machado afirma a Sarney que contribuiu para a campanha do então deputado federal Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB, em 2012. Segundo o “JN”, a contribuição ocorreu a pedido do presidente interino da República, Michel Temer.

Em outra conversa gravada por Machado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi processado no caso do mensalão porque os pagamentos ao marqueteiro Duda Mendonça no exterior não foram investigados a fundo.

Na conversa, Machado também revela que a empreiteira Odebrecht estava contrariada com Dilma. “O que está incomodando muito a Odebrecht, que eu soube, isso eu já soube, é que recebeu caixa dois no exterior em todos esses mercados que a Odebrecht apurava e o pessoal está puto com ela [Dilma].”

Machado e Renan tratam ainda da recondução de Rodrigo Janot ao cargo de procurador-geral da República. Renandiz que foi contra a recondução.

GRAVAÇÕES

Machado fez as gravações para conseguir que seu acordo de delação premiada fosse aceito pelo Supremo Tribunal Federal, o que ocorreu na última quarta (25). Além de Renan e Sarney, Machado também gravou conversas com Romero Jucá, aliado de Temer. Jucá foi afastado do ministério de Temer após aFolha de S. Paulorevelar que ele sugeriu que um pacto do novo governo deveria “estancar a sangria” representada pela Lava Jato.

Leia os novos trechos:

Conversa entre José Sarney e Sérgio Machado

MACHADO – A Dilma não tem condições. Você vê, presidente, nesse caso do marqueteiro, ela não teve um gesto de solidariedade com o cara. Ela não tem solidariedade com ninguém não, presidente.

SARNEY – E, nesse caso, ao que eu sei, é o único que ela tá envolvida diretamente. E ela foi quem falou com o pessoal da Odebrecht para dar, acompanhar e responsabilizar pelo Santana [João Santana, marqueteiro de Dilma e Lula, preso pela PF em 23 de fevereiro passado].

MACHADO – Isso é muito sério. Presidente, você pegou o marqueteiro dos três para o presidente do Brasil. Deixa que o ministro da Justiça, que é um banana, só diz besteira, nunca vi um governo tão fraco, tão frágil e tão omisso. É que estavam dizendo esta semana: a presidente é bunda mole. A gente não tem um fato positivo.

SARNEY – E todo mundo, todo mundo acovardado.

MACHADO – Acovardado.

[…]

SARNEY – O Renan, eu falo com, eu mesmo falo com ele, mas eu prefiro falar assim com o César Rocha. Prefiro falar com o César.

MACHADO – Ninguém sabe que eu lhe ajudei.

SARNEY – Porque o César Rocha, o César, o César Rocha é que é o nosso cúmplice junto com o…

MACHADO – Com o Teori?

SARNEY – Com o Teori. Ele é muito, muito, mas muito amicíssimo lá do tribunal. O César fez muito favor pra ele.

MACHADO – O Teori era do tribunal do César?

SARNEY – Era. OTeori era do tribunal do César.

[…]

MACHADO – Você acha que a gente consegue emplacar o Michel sem uma articulação […[ do jeito que esta […]?

SARNEY – Sem articulação, não. Vou ver o que está acontecendo. Vou ao Michel hoje.

MACHADO – O Michel… eu contribuí para o Michel. Não quero nem que o senhor comente com o Renan. Contribuí com o Michel para a candidatura do menino [Gabriel Chalita, do PMDB, à Prefeitura de São Paulo, em 2012]. Falei com ele até em lugar inapropriado, na base aérea.

SARNEY – Mas alguém sabe que você me ajudou?

MACHADO – Não, ninguém sabe, presidente.

Conversa entre Renan e Machado

MACHADO – Os canais para… porra.

RENAN – O problema do Lu… por que que o Lula saiu [não foi acusado no processo do mensalão]? Porque o Duda [Mendonça, marqueteiro] fez a delação, na época nem tinha [a lei], o Duda fez a delação, e disse que recebeu o dinheiro fora. E ninguém nunca investigou quem pagou, né? Este é que foi o segredo.

MACHADO – E o Lula, Renan, durante [inaudível] um tempo não fez. […] Quando chegou no final do governo…

RENAN – Veio, caiu na real.

MACHADO -…botou na real. Aí [inaudível] umas besteiras, como a Marisa diz, besteira. Ele tem 30 milhões em caixa. Como é que não comprou um apartamento, uma porra [inaudível]. Porra, umas merdas, um sítio merda, um apartamento merda.

RENAN – Apartamento bancário!

MACHADO – De bancário, deixa o cara decorar…

RENAN – Da Bancoop.

MACHADO – Duzentos metros quadrados, Renan. Quer dizer, foi uma cagada enorme, e aí ele se fodeu. Porque ele não fez no governo. Ele armou depois, naquela Sete, naquela Sete que armou. Inclusive tentaram [inaudível]. E ali foi o Gabrielli, junto com uma turma, armaram aquilo, foi outra cagada.

RENAN – Outra cagada.

MACHADO – E ela [Dilma] foi louca, ela viu essa porra e achou que dava. Renan, se você está no governo e começa o incêndio, estando ou não no meio, você tem que apagar, tá dando merda. Você não pode deixar o fogo subir. Esses são os caras. Não podemos deixar essa porra para baixo de jeito nenhum. Você acha que o [advogado Eduardo] Ferrão tem força sobre ele [Teori]?

RENAN – Acesso. Nesse primeiro momento é o acesso.

MACHADO – E eu não vou falar nada com o meu pessoal porque não quero ninguém metido nisso.

[…]

MACHADO – Hoje, eu acho que vocês não poderiam ter reconduzido esse bosta, não. Aquele cara ali…

RENAN – Quem?

MACHADO – Ter reconduzido o Janot. Tinha que ter comprado uma briga ali.

RENAN – Eu tentei… Mas eu estava só.

[…]

MACHADO – [Sobre financiamento de campanha] Quantas vezes tive que interromper campanhas honestas para ir encontrar pessoas e dizer, ‘olha, estou desesperado, preciso de dinheiro’? Encontrar 25 pessoas, cinco vão doar, entre essas cinco que vão doar, uma está metida em problema com quem você não devia se associar. Como é que você no meio de eleição, para ganhar ou para perder, tu quer saber de onde é que vem a origem?

RENAN – [inaudível]… A Odebrecht ficou de pagar […].

MACHADO – Quem mais contribuiu para ela [Dilma]?

RENAN – O negócio do João. Só que…[inaudível] Então ela fingia que estava [inaudível] provar que não tem influência nenhuma.

MACHADO – [inaudível]

RENAN – Isso que ia dar problema.

MACHADO – [Inaudível] Isso ia dar problema, esteve com ela e falou isso, e os donos não deram nenhuma importância. Agora, o que está incomodando muito a Odebrecht, que eu soube, isso eu já soube, é que recebeu caixa dois no exterior em todos esses mercados que a Odebrecht apurava e o pessoal está puto com ela.

RENAN – É. E o João Santana soube e continuou fazendo campanha, ganhar dinheiro. Só daquele Eduardo, de Angola, a campanha custou 150 milhões.

MACHADO – É, eu sei. E agora eles estão putos porque agora estão… Vão responder em torno dela, comprovado, comprovadamente. E a Suíça enlouqueceu. Era o país mais seguro do mundo e virou o país mais inseguro do mundo. Então acho que tem que fazer, Renan, um processo… Porque todo político está assim. Não tem nenhum. Quem é que nunca pediu dinheiro? José Agripino, Aécio, Arthur, Aloysio.

[…]

RENAN – Os caras deram uma nota, o UOL, que o Teori estava despachando nesse final de semana…

MACHADO – Foi isso, foi isso, deu o maior rolo do mundo.

RENAN – Não, lá em Alagoas, o cara botou no UOL que estava querendo ver meu caso, que é a pressão que esse filho da puta faz todos os dias… Não sei o quê e tal. Aí veio um cara que trabalha com a gente, ou querendo prestar serviço, ninguém sabe direito disso, disse o seguinte: ‘Olha, eu estou com informações aí, informações seguras, do pessoal da rede hoteleira, que tem 70 policiais da Polícia Federal e que vai fazer busca e apreensão, tal, na sua casa’. Imagina o cara ouvindo uma porra dessas. Você não tem o que fazer.

MACHADO – Não tinha o que fazer. Você tem que estar psicologicamente preparado para essa merda. Aí não adianta tentar falar com ninguém, querer ter informação. Mas essa história foi domingo passado. De norte a sul de leste a oeste. […] Boataria, boataria. […]

RENAN – […] Ninguém sabe, eles vivem nessa obsessão.

[…]

RENAN – Mas você tem ideia do louco que é isso.

MACHADO – Tudo por causa dessa mulher aí. Renan, como esses caras nomeiam oito ministros do Supremo, oito! Para cima do Rio é tudo um bando de fanfarrão. Fux, não sei quem, não sei quem. A Rosa Weber não deu o negócio do Lula, rapaz.

RENAN – Não deu. Falei com o Lula outro dia…

MACHADO – Ele acha que ganha no pleno?

RENAN – Acha que gan… Tem que aguardar essa decisão.

MACHADO – Mas ele foi [inaudível]? Ele perdeu, o negócio dos procuradores, não deram.

RENAN – Aí porque é lobista, tem influência sobre a mulher. Mas toda vez a mulher fica contra. Eu quero é estar perdendo. Esse povo liga ‘presidente… de qualquer maneira tem acesso…’