Transtorno que distorce a imagem que as pessoas têm do próprio corpo, a dismorfia corporal é pouco conhecida, mas pode causar enormes estragos na vida psíquica dos afetados

Giulia Vidale
Revista Veja

Em frente ao espelho, a jornalista Daiana Garbin vê a imagem de uma mulher com 100 quilos|Alexandre SchneiderEm frente ao espelho, a jornalista Daiana Garbin vê a imagem de uma mulher com 100 quilos|Alexandre Schneider

“Peso 100 quilos. Tenho braços grossos. Meus ombros e meus quadris são largos demais. Sou muito alta.” Assim a jornalista Daiana Garbin, de 34 anos, descreve o próprio corpo. Daiana, como se vê na foto acima, é lindíssima e tem medidas invejáveis para qualquer mulher: 65 quilos perfeitamente distribuídos em 1,70 de altura.

A distorção da realidade, porém, está longe de ser imaginária. Ela de fato se vê assim. A alteração visual é atribuída a uma doença psiquiátrica específica e bem definida pela medicina. Chamada de transtorno dismórfico corporal (TDC) ou dismorfia corporal, caracteriza-se justamente pela percepção alterada de si mesmo diante do espelho.

“A dismorfia é capaz de causar enormes estragos na autoestima dos pacientes”, diz Joana de Vilhena Novaes, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC do Rio de Janeiro.

Essa doença grave, porém, é ainda muito pouco conhecida. Pelas próprias características que a definem, ela é indevidamente confundida com… excesso de vaidade.

Descrita pela primeira vez no fim do século 19, a dismorfia corporal só agora começou a ser discutida de maneira aberta entre aqueles que sofrem da doença.

Recentemente, o britânico Robert Pattinson, ator da saga Crepúsculo, afirmou a uma revista australiana viver incomodado por ser franzino demais (não é), a ponto de preferir não ser visto sem camisa. Pattinson já foi diagnosticado com TDC.

No Brasil, a jornalista Daiana Garbin foi a principal responsável pela divulgação do problema ao criar um canal no YouTube, o “Eu Vejo”.

Seus depoimentos francos, intercalados com declarações de outros pacientes, fez o TDC virar notícia e seu programa, referência.

O TDC acomete cerca de 2% da população global –no Brasil, seriam cerca de 4 milhões de pessoas. A doença tem traços de compulsão, naturalmente percebidos pelos pacientes mas dificilmente identificados por familiares e amigos.

O doente não vê sua imagem distorcida pura e simplesmente. Ele age de forma obsessiva em função dessa percepção. Com o objetivo de camuflar o defeito imaginado – que pode ser do corpo inteiro ou de apenas uma pequena porção dele –, ele checa constantemente a própria aparência no espelho, escova excessivamente o cabelo, exagera nos cuidados estéticos.

Diz o dermatologista Jardis Volpe, de São Paulo: “Esse tipo de paciente quer se submeter a inúmeros procedimentos para corrigir problemas mínimos ou inexistentes e, independentemente do resultado, nunca está satisfeito”.

As medidas tomadas pelos portadores do transtorno podem ser ainda mais dramáticas. Estima-se que um terço deles tenha recorrido a mais de uma cirurgia plástica para “corrigir” sucessivas vezes um mesmo problema.

O TDC ainda costuma ser acompanhado de outros distúrbios. Cerca de 90% dos doentes sofrem de depressão; 48% abusam de bebidas alcoólicas e 32% sofrem de anorexia ou bulimia.

Homens e mulheres são vítimas do transtorno em igual proporção. A faixa etária mais acometida é a dos 15 aos 20 anos. Uma das possíveis explicações é que nessa fase o cérebro está em plena ebulição.

Os estudos mais consolidados indicam uma origem neurológica para o transtorno. O cérebro dos pacientes com TDC sofre de um descompasso de substâncias como noradrenalina, dopamina e serotonina, sobretudo nas regiões relacionadas à visão e ao gerenciamento de emoções.

Tais compostos estão associados, por exemplo, aos mecanismos de recompensa, ansiedade, motivação e humor. “Esse tipo de alteração pode elevar o nível crítico da própria imagem”, afirma Eduardo Aratangy, psiquiatra do Serviço de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Além disso, as mudanças hormonais drásticas e a necessidade de aceitação durante a adolescência podem ajudar a deflagrar a doença.

Não há medicamentos específicos para o transtorno. O tratamento consiste em antidepressivos associados a terapia. A combinação não elimina a percepção distorcida da própria imagem, mas minimiza os efeitos dos sintomas – o paciente consegue evitar que eles interfiram em seus compromissos mais relevantes. Definitivamente, não se trata de uma vaidade qualquer.

ENQUETE EM SÃO LUÍS SOBRE DISMORFIA CORPORAL

“Sou magra, mas vejo quilos de ‘banha’ acumulados na minha barriga, o que me incomoda.”

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Cleyciane Cristina Pessoa Ribeiro, 22 anos, estudante, Maioba

“Eu acho que todo mundo olha para meus defeitos, meus pontos negativos, e não adiante alguém dizer que sou magra, que o peso está bom, que estou bem, que sou bonita, o que vejo é o contrário disso, e numa visão bem piorada”.

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Denise Kelly da Conceição, 23 anos, balconista, Maiobão

“Eu me olho no espelho e não aceito o que vejo, a minha imagem. Me acho feia, queria mudar muita coisa em mim.”

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Suzenira Silva Ferreira, 21 anos, babá, São Francisco

“Não conhecia pelo nome de dismorfia corporal, mas pelas características da doença, eu sei que já tive. Mas isso é passado, hoje não tenho mais neuras.”

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Juliana Jorge Dino, 20 anos, estudante, Ilhinha

“Ninguém diz que sou gorda, mas eu não fico de biquíni ‘nem pagando’ numa praia.”

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Ingrid Pires, 21 anos, estudante, Santo Antônio

“Acho que sempre teria algo para ‘ajustar’ em mim, mas nunca inventaria um problema no meu corpo que não existe.”

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Jaqueline Ferreira, 25 anos, universitária, Caratatiua