Por José Linhares Jr.

Ferry-boat se tornou um dos transportes mais democráticos e seguros do Maranhão

“Boa viagem e até mais tarde, capitão”. Assim começam as travessias do ferry-boat que levam, diariamente, milhares de pessoas de São Luís a Alcântara e vice-versa. Inaugurada em 1988, a rota marítima que liga a Ponta da Espera a Cujupe completa duas décadas este ano. O trajeto, que na década de 1970 era feito de forma arcaica, teve um crescimento de mais de 200% nos últimos anos. Atualmente, o ferry-boat é um dos principais meios de transporte do Maranhão.

Transporte democrático – As embarcações do ferry-boat fazem o transporte de pessoas das mais variadas classes sociais e intenções. Turistas, caminhoneiros e profissionais liberais, todos se tornam passageiros. Pessoas como Benedito Martins Ribeiro de Moraes, que utiliza o serviço cerca de duas vezes por mês para ver os filhos que moram em São Luís. “Minha casa é na Baixada e tenho seis filhos que moram na capital. Antigamente o trajeto era mais difícil, hoje em menos de duas horas estou com minha família”, disse o aposentado de 76 anos.

O ferry-boat não é usado só por pessoas que visitam as famílias. As embarcações também funcionam como uma rota comercial indispensável. Todos os dias são dezenas de caminhões que transportam alimentos, peças, materiais de construção e mais uma infinidade de outros produtos. José Francisco Teles, caminhoneiro que já acostumou a utilizar o serviço do ferry, falou das viagens, quase que diárias. “Dirigir nestas rodovias pecárias do Maranhão é uma tarefa estafante, viajar de ferry não. Além disso, existe a rapidez no trecho”, explicou.

Grande parte dos suprimentos que sustenta a Base Aérea de Alcântara, também é transportada pelo ferry-boat. O soldado Emerson Farias uma vez por semana utiliza o serviço para levar alimentos aos ocupantes da Base. Reservado durante a viagem, Emerson definiu o serviço de transporte de forma direta: “Rápido e seguro”.

Fotos:G.FERREIRACom toda a sua imponência e magnitude o Baía de São José desliza suavemente pela baía de São Marcos

Benedito Ribeiro: ferry-boat serve de elo com os filhos

Comandante Airton se delicia com a paisagem que vê da cabine do ferry

Equipe do JP sentiu a emoção da travessia
Apesar de ser um serviço de utilidade pública, o ferry-boat possui pouquíssimas regulamentações. Não existe concessão pública e, mesmo assim, o transporte é atualmente um dos mais confiáveis do Maranhão. Uma prova de que a “mão invisível” de Adam Smith era correta. Em “A Riqueza das nações”, o autor usou o termo para descrever como em uma economia de mercado, apesar da inexistência de uma entidade coordenadora do interesse comunal, a interação dos indivíduos parece resultar numa determinada ordem, como se houvesse uma “mão invisível” que os orientasse.

Turismo, paisagens e boa viagem
Diariamente, por volta das 11h, o Cidade de Pinheiro deixa a Ponta da Espera, em São Luís, e se desloca para o terminal de Cujupe, em Alcântara. Comandada por Airton Batista de Sousa e José Carlos Castro, a embarcação é tripulada por quatro marinheiros de convés, chefe de máquinas, auxiliar de máquinas e auxiliar de limpeza.

lhas estão entre as belezas naturais que podem ser admiradas durante as viagens
Após o embarque dos veículos e passageiros, a embarcação se desloca pelo Boqueirão. Quem prefere a proa do navio, avista o horizonte e as pequenas penínsulas da Baía de São Marcos. Uma paisagem que chama mais a atenção quando o céu está azul. “O vento batendo no rosto traz uma sensação de liberdade, principalmente quando saímos de São Luís. Parece que toda a correria da cidade fica para trás”, disse a enfermeira Josefa Lins Costa.

Algumas pessoas preferem a popa do ferry. Lá, uma paisagem não menos bela salta aos olhos dos mais observadores. A Ilha de São Luís, com os prédios modernos da Ponta d´Areia e os velhos casarões do Centro Histórico, vai sendo encoberta pela distância. A trilha formada pelos motores da embarcação é um bônus à parte, principalmente quando as gaivotas se aglomeram em busca de algum peixe atordoado pelo motor. “Coisa bonita de se ver. Elas vêm em bandos e esperam que os peixes sejam trazidos à superfície pelo turbilhão do motor. Quando uma vê o peixe, ela sai pela lateral e mergulha. Um espetáculo da natureza”, comentou o capitão Airton Batista.

Quando passa do “Coreano”, ponto do trajeto determinado pelas ruínas de uma embarcação da Coréia que naufragou na Baía de São Marcos há muitos anos, a paisagem é substituída drasticamente. Se antes era preciso levantar os olhos para ver as ilhas e gaivotas, agora é preciso baixar a cabeça para ver outro fenômeno. A dança das águas marítimas com as águas dos rios forma uma tela natural. “Como as águas trazidas pelos rios para a baía são mais densas do que as águas do mar, demora um pouco para que elas se misturem”, explicou um dos marinheiros.

Nas proximidades do canal do Cujupe, é hora de levantar os olhos mais uma vez. Os guarás deslizam pelas margens e cruzam os céus em um bailado que emociona até mesmo o mais acostumado dos tripulantes. “É muito bonito de se ver. Trabalho há muito tempo com embarcações aqui na Baía de São Marcos, mas nunca canso de ver o show dessas aves”, disse o capitão Airton Batista.

Até mesmo na chegada a Cujupe, as belas paisagens não dão trégua. Seja pelo farol de Itaúna, uma construção branca que parece brotar do meio do mato, ou pela vegetação densa, que às vezes parece tentar invadir as águas, dando uma noção de como era a natureza antes da ação do homem. “Ganho para fazer o transporte cargas e a cada dia noto uma nova imagem. E olha que faço isso há muito tempo. Costumo brincar que no ferry deixo de ser trabalhador e viro turista”, brincou José Francisco Teles.

Um pouco da história
O trajeto marítimo utilizando balsas começou a ser feito na década de 1970. Contudo, foi apenas com a inauguração do terminal de Cujupe, em Alcântara, que o serviço começou a ganhar notoriedade. Landrin Sandin Filho, um dos atuais artífices do transporte, é um conhecedor dessa história

Landrin contou que o serviço começou a ser feito inicialmente pela Companhia Docas do Maranhão (Codomar). “Eles tinham duas embarcações vindas da Bahia, a São Marcos e São José. Apesar do serviço começar a ser mais profissional, elas ainda eram balsas um pouco arcaicas”.

O ferry é a alternativa mais viável para se chegar à Baixada Maranhense
Logo após a Codomar, veio a Conam, que operou as embarcações por pouco tempo. Em 1994 a Servporto assumiu a travessia. Logo retirou as antigas embarcações de circulação e adquiriu o Itaúna. “Com capacidade para 35 veículos e 600 passageiros. Ela foi, durante dois anos, a única embarcação que realizava a travessia”, recordou Landrin.

Em 1996 foi encomendada a balsa Cidade de Alcântara, entregue em 1997. Este foi o primeiro ferry desenvolvido especialmente para a travessia entre São Luís/Cujupe. Naquele mesmo ano, foi encomendado o ferry Cidade de Pinheiro, entregue em 1998. Mais uma vez, após receber um novo ferry, a Servporto encomendou mais uma embarcação. Dessa vez, Cidade de Cururupu que entrou em atividade em 1999.

Desde 1970 a travessia era feita apenas em horários de maré cheia. Em 2001, técnicos e engenheiros da Servporto começaram a analisar uma mudança no procedimento. E, naquele ano, os horários do serviço começaram a não depender das marés. “Eram 2 marés cheias por dia, então só havia duas ou três viagens por dia”, disse Landrim.

Depois dos estudos, a média de viagens dobrou, chegando a nove por dia em algumas épocas do ano. Junto com os novos horários, foi iniciada uma verdadeira revolução no serviço. O número de passageiros do ferry-boat teve um aumento de mais de 200%.

Para Landrim, não só os novos horários são responsáveis pelo crescimento do ferry. “Os novos horários deram credibilidade. Mas, não podemos negar que o crescimento das cidades da Baixada Maranhense influenciou bastante. Além disso, temos o encurtamento de tempo em viagens São Luís/Belém. Pela rota normal são 820 km percorridos em cerca de 12 horas. Pelo ferry-boat, são 520 km cursados em seis horas”.

Atualmente, o serviço emprega 200 pessoas diretamente e conta com o maior ferry-boat do Brasil. O Baía de São José, com capacidade para quase 100 veículos e mais de 1000 passageiros, é a maior embarcação brasileira deste porte.

Em dezembro, a Servporto deve adquirir um novo ferry. O Cidade de Tutóia terá a mesma dimensão do Bahia de São José, além de estar totalmente apto as normas de acessibilidade.