José de Oliveira Ramos
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Quem viveu e acompanhou o futebol no início da década de 50, mais precisamente nos anos 1953, 1954 e 1955, lembra o sufoco que o técnico Fleitas Solich, paraguaio que por anos comandou o Flamengo, vivia quando o seu time enfrentava o ataque (à época, formado por cinco jogadores) do América Futebol Clube com Canário, Romeiro, Leônidas, Alarcon e Ferreira.

Sim, pois foi em 53, 54 e 55 que o Flamengo conquistou o tricampeonato e, em 55, que Tomires teria sido “designado” para quebrar o argentino Alarcon, que era o homem que desequilibrava as coisas em favor do “Diabo Rubro”. Mas isso nunca foi confirmado. Não existiam testemunhas, tampouco provas.

Mas não era apenas o argentino Alarcon que promovia verdadeiras loucuras à defensiva flamenguista (García; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan). O carioca Darcy Silveira dos Santos, conhecido no mundo do futebol pelo apelido de Canário, era o “outro Diabo” que infernizava a vida do Flamengo e, por via indireta, do técnico Fleitas Solich.

Nascido em Olaria – Zona da Leopoldina –, subúrbio do Rio de Janeiro, no dia 24 de maio de 1934, Darcy Silveira dos Santos, chegou à adolescência batendo bola nos bairros da Penha, Vila da Penha e, em algumas oportunidades até em Madureira e Vicente de Carvalho.

Num belo dia, como um raio, aportou na Rua Bariri, mais precisamente no Olaria Atlético Clube, muito próximo de onde morava com os pais. Isso aos 19 anos.

Ao completar 20 anos, já como Canário, Darcy Silveira dos Santos chegou ao América, sendo obrigado a fazer uma viagem mais distante até à Rua Campos Sales, no bairro da Tijuca. Estava ingressando profissionalmente no América, em 1954.

Se em 1952 e 1953 o técnico Oto Glória podia contar com Paraguayo como autêntico ponta-direita, em 1954 o América pôde mandar à campo Pompéia; Rubens e Edson; Ivan, Osvaldinho e Hélio; Canário, Romeiro, Leônidas, Alarcon e Ferreira.

Canário, ainda com a camisa
do Olaria

Em pé: Pompéia, Rubens, Edson, Ivan,
Osvaldinho e Hélio. Agachados: Canário,
Romeiro, Leônidas, Alarcon e Ferreira

Outra formação do América, já contando com
Cacá e ainda com Alarcon

Seleção brasileira – Em pé: Djalma Santos,
Pompéia, Edson, Formiga, Zózimo
e Hélio. Agachados: Canário, Romeiro,
Leônidas, Zizinho e Ferreira

Zaragoza – Em pé: Yarza, Cortizo,
Santamaría, Reija, Isasi e Pepin; Agachados:
Canário, Duca, Marcelino, Villa e Lapetra

Seleção brasileira – Em pé: Djalma Santos, Pompéia, Edson,
Zózimo, Formiga e Hélio. Agachados: Canário, Romeiro,
Leônidas, Zizinho e Ferreira
O time formado taticamente com: goleiro; dois zagueiros fixos; três médios; e cinco atacantes; infernizou a conquista dificílima do Flamengo (García (Aníbal); Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Moacir, Henrique, Dida e Esquerdinha – o famoso William Kepler Santa Rosa). Em 56 e 57 contando com o ataque que tinha Paulinho, Rubens, Índio, Evaristo e Babá.

Jogando o melhor do seu futebol, Canário permaneceu no América até 1959, sem ter conseguido ser campeão estadual. Convocado várias vezes para a seleção brasileira, nunca vestiu a camisa amarelinha numa Copa do Mundo, pois havia uma luta ferrenha contra Joel, Julinho e ainda Garrincha. Ainda assim, atuou em sete oportunidades como titular, conquistando cinco vitórias e um empate e amargando uma derrota. Marcou 7 gols com a camisa da seleção brasileira.

Em 1958, com a conquista da Copa do Mundo da Suécia pela seleção brasileira, o futebol nacional ganhou inquestionável projeção, principalmente na Europa. Em 1959, o Real Madrid, então presidido por Santiago Bernabéu, contratou o campeão mundial Didi e, orientado por empresários, contratou também Canário, embora esse atuasse num time “intermediário” como era considerado o América Futebol Clube.

Se ainda não havia sentido a alegria de ser campeão, no Real Madrid, atuando ao lado de gênios do futebol como Didi (que permaneceu no clube espanhol por pouco tempo), Del Sol, Di Stéfano, Puskas e Gento, depois de ambientação com as diferenças, sagrou-se tricampeão espanhol em 1961, 62 e 63 pelo Real Madrid.

Mas, logo no ano de 1960, o jovem saído da Vila da Penha no Rio de Janeiro, sagrar-se-ia campeão europeu e mundial de clubes defendendo as cores do Real Madrid.

Como se isso por si só não fosse suficiente, a imprensa espanhola continua até os presentes dias reverenciando o ataque madrileno formado por Canário, Del Sol, Di Stéfano, Puskas e Gento.

Canário defendeu o Real Madrid até 1966. Em 1967, transferiu-se para o Zaragoza, também da Espanha. Defendeu ainda as cores do Sevilla e do Mallorca, onde finalmente encerrou a carreira como jogador profissional. Esteve várias vezes no Brasil, apenas como visitante. Fixou residência definitiva em Madrid.