José de Oliveira Ramos
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Corriam céleres os anos cinqüenta e sessenta no rumo da profissionalização do futebol cearense. O Ceará Sporting ganhara um bom dinheiro com a transação de Alencar para o Esporte Clube Bahia e o Ferroviário não ficara atrás, negociando Zé de Melo ao Santa Cruz e, em seguida, Pacoty ao Sport Recife.

Embora as maledicências sejam fortemente contestadas, diziam alguns que o Fortaleza, por inveja, começou a correr atrás de bons valores no interior do Estado. Paralelamente, começou a desenvolver um dos primeiros trabalhos de base implantados no Brasil, com a Escolinha de Moésio Gomes.

Uma verdadeira “mina de ouro” é o Torneio Intermunicipal de Futebol promovido até hoje pela APCDEC (Associação dos Profissionais da Crônica Desportiva do Estado do Ceará), que naquela época era comandada por Aliatar Bezerra, posteriormente sucedido por Gilvan Dias.

O Torneio Intermunicipal de Futebol – que tinha seus jogos finais realizados na capital – apresentava todos os anos, ótimos valores individuais.

Depois de vencer e eliminar seus adversários anteriores, o selecionado de Limoeiro do Norte, município do Baixo Jaguaribe, no Ceará, que atualmente conta com uma população de pouco mais de 50 mil habitantes ocupando uma área de 771,0 km2, – naquela época não chegava aos 20 mil habitantes – chegou para as disputas da etapa final.

Limoeiro do Norte acabou ficando com o título de campeão. Em suas fileiras trouxe um destaque individual. Melhor, um “super- destaque” individual. Falamos de Francisco Gervázio Filho, nacionalmente conhecido por Bececê.

Nascido norte-riograndense no dia 1º de janeiro de 1936, pela vizinhança com o Ceará, Bececê disputou o Torneio Intermunicipal de Futebol pelo selecionado de Limoeiro do Norte.

Uma particularidade apresentada pelo jogador chamou a atenção de todos: o fortíssimo chute, com a antiga “bola de couro”, quase indefensável para a maioria dos goleiros daquela época – que jogavam sem luvas.

Depois de sagrar-se campeão do Torneio Intermunicipal, Bececê, que de quebra foi o artilheiro da competição, foi contratado pelo Fortaleza, na época, dirigido por José Raimundo Costa e Otoni Diniz.

A contratação, acertada, rendeu frutos positivos logo em 1959, quando o Fortaleza sagrou-se campeão estadual, retomando a hegemonia do Ceará Sporting. De quebra, Bececê foi o artilheiro da temporada, com 21 gols marcados. A partir daí, o ponta-esquerda do “tricolor de aço do Pici” passou a fazer parte de todas as seleções estaduais para as disputas dos campeonatos brasileiros de seleções, transformando-se, também, num dos melhores e mais laureados atacantes do futebol nordestino.

Bececê, na Prudentina, depois de atuar no Palmeiras.

Bececê no ataque palmeirense com:
Gildo, Vavá, Servílio e Ademir da Guia

FORTALEZA: Em pé: Charuto, Sanatiel, Célio,
Toinho, Renato e Aluísio II. Agachados: Aluísio I,
Walter Vieira, Benedito, Zé Raimundo e Bececê

Bececê com a família e o amigo Djalma Santos
Naquela época, não havia sido implantado o trabalho de fortalecimento muscular para os jogadores. Mesmo assim, nunca se soube de alguém que chutasse mais forte que Bececê. Não havia, também, a exigência de que jogadores “sangrando em campo” tivessem que sair para atendimento médico.

Pois, Bececê, foi o primeiro grande chutador do futebol brasileiro que acabou com as formações de barreiras nas cobranças de faltas. Ninguém se dispunha a ficar na barreira e receber um chute (verdadeiro canhão) do atacante do Fortaleza. Pela falta do trabalho de fortalecimento muscular, Bececê tinha o hábito de, na hora do chute, morder o lábio inferior, tentando garantir mais força e concentração. Quando cobrava muitas faltas, saía de campo com a boca sangrando.

Em 1960, o Fortaleza conquistou um dos mais importantes títulos da sua história. Sagrou-se vice-campeão brasileiro, em decisão contra o Palmeiras, no Parque Antárctica. Bececê chamou muito a atenção dos dirigentes palmeirenses. Em 1961 o atacante teve seu liberatório comprado pelo Palmeiras.

Vestindo a camisa da Sociedade Esportiva Palmeiras ao lado de Ademir da Guia, Djalma Santos e outros craques igualmente famosos, Bececê disputou 18 jogos, conquistando 10 vitórias, três empates e cinco derrotas. Marcou apenas 3 gols entre os anos de 1961 e 1964. Em 1963 sagrou-se campeão paulista pelo Palmeiras.

No final de 1964, foi negociado à Prudentina, de Presidente Prudente. Dali, acertou contrato com a Ferroviária, de Araraquara, depois ainda jogou pelo Noroeste de Bauru e pelo Juventus.

Bececê, ainda dono do mais potente chute do Brasil, foi negociado ao futebol venezuelano, mais propriamente ao Valência, onde encerrou a carreira de jogador profissional no ano de 1970.