Arleth Borges

Foi em clima de emoção que o Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão, por iniciativa de seu chefe, “despediu-se” do professor Sérgio Figueiredo Ferretti, antropólogo que desde 1979 trabalha na – e fundamentalmente pela – UFMA.

Poderia falar dele citando seu extenso currículo, mas prefiro fazê-lo falando do que seus colegas de trabalho e amigos de UFMA manifestaram espontânea e publicamente a seu respeito na reunião do Departamento. De todos os relatos, ficou claro que uma das impressões mais fortes e recorrentes que o prof. Ferretti provoca em seus colegas é a do compromisso com o trabalho universitário, sua dedicação sem reservas e sua paixão pela UFMA e pelas Ciências Sociais. Alguns lembraram que o conheceram ainda nos anos 70, quando atuava também na Secretaria de Cultura, pesquisando terreiros, danças, religião festas populares, pesquisas estas que são importantes não apenas para a compreensão e visibilidade dessas manifestações culturais, mas também para o reconhecimento das mesmas como expressões legítimas de segmentos sociais e ritos culturais de comunidades afro-descendentes, geralmente discriminadas e silenciadas. Nesse sentido, o seu trabalho cumpre o papel de instrumento de combate às discriminações, ao preconceito e ao esquecimento.

Antes de vir para o Maranhão, o prof. Ferretti já exercia a docência e trabalhava na área cultural em seu estado natal, o Rio de Janeiro. Em nosso estado foram quase quatro décadas de academia (UEMA e UFMA), nas quais ministrou aulas; orientou alunos; pesquisou a cultura maranhense; publicou os resultados de suas pesquisas; viabilizou publicações institucionais; trouxe pesquisadores de outros estados e países para atividades na UFMA; organizou muitos eventos acadêmicos na UFMA e participou de vários outros aqui, em outros estados e países; implantou núcleos de estudos, batalhou arduamante pela implantação de cursos de pós-graduação, especialmente o de Políticas Públicas e o de Ciências Sociais; contribuiu com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão, entre tantas outras atividades.

Não há quem tenha convivido com o prof. Ferretti que não percebesse ou não se deixasse influenciar pelo seu ritmo de trabalho, seu entusiasmo em relação à Universidade e seu empenho em atualizar-se. Sempre tinha às mãos os últimos livros de Antropologia que, aos olhos dos colegas e alunos, eram como lembretes de que o conhecimento não para e que é fundamental a atualização permanente.

Mesmo tendo direito – e muitas vezes o incentivo – a retirar-se da universidade pública há muitos anos, o prof. Ferretti permaneceu no Departamento de Sociologia e Antropologia até o último momento permitido pela legislação, num gesto de irrefutável compromisso com a instituição e com o seu trabalho, fontes da incrível vitalidade que sempre demonstrou. É pesquisador do CNPq, posição a que chegou por conta da extensão e relevância da sua produção científica, que o fez reconhecido não apenas na UFMA e no Maranhão, mas no campo das Ciências Sociais, particularmente a Antropologia, sendo motivo de orgulho as inúmeras vezes em que, em viagens para eventos regionais e nacionais, nos apresentamos como do Maranhão e a associação ao professor Ferretti era automática.

Como pessoa, as falas foram de reconhecimento de que os modos arrojados como muitas vezes manifestou suas firmes posições em nada comprometem seu espírito solidário e acolhedor, sua simplicidade e amizade. Nós, professores do Departamento de Sociologia e Antropologia somos-lhe gratos pelo seu trabalho, pelo exemplo e incentivos e ficamos contentes por continuarmos a ter a sua contribuição como pesquisador da instituição. Desejamos-lhe muitas alegrias – como intelectual, no seu “casamento feliz” (como ele mesmo diz) com a professora Mundicarmo Ferretti e no convívio com seus filhos e netas, símbolos das inúmeras possibilidades que temos de renovar o mundo.

A idéia de que o prof. Ferretti seja institucionalmente reconhecido como professor emérito foi sugestão de um dos seus colegas de trabalho. A tramitação formal da proposta ainda haverá de acontecer, mas, para a assembléia do departamento de Sociologia e Antropologia, que o homenageou no dia 07/11 já o é!

Arleth Santos Borges é Doutora em Ciência Política, professora de Sociologia e Antropologia da Ufma e escreve para o Jornal Pequeno quinzenalmente (sextas-feiras).