Paulo Melo Sousa
CULTURA POPULAR
De São Luís toma-se o Ferry Boat na Ponta da Espera e atinge-se o Cujupe; de lá segue-se direto até Apicum-Açu, num micro-ônibus que normalmente faz a linha em 9 horas de viagem. Esse é o primeiro passo para se alcançar o objetivo almejado. Pernoita-se ali, lugar onde às 10 da noite o comércio fecha e as pessoas se recolhem e, se você não chegar a tempo, dorme com fome. No outro dia, a espera é pela maré. O barco é contratado, mas não confie no horário acertado. De meio-dia muda para as duas e, dessa hora, para o fim da tarde. Aparece uma outra embarcação, menor, e quem não tem medo de água se aventura. Com três horas de viagem chegamos à Ilha dos Lençóis, no município de Cururupu (não confundir com os Lençóis Maranhenses). Na Ponta do Gino, porta de entrada das embarcações, pedimos licença para Dom Sebastião, e entramos no local, saudados por várias revoadas de garças e guarás. Pode-se chegar a esse destino ainda por avião fretado, monomotores que pousam em Bate-Vento, ilha fronteiriça a Lençóis.

Devidamente hospedados na casa de dona Marluce, que serve o melhor camarão e o melhor peixe assado da área, recomeçamos a desbravar o paraíso. São trilhas indescritíveis, com praias desertas, praticamente limpas e sedutoras. Á noite, um passeio indispensável às morrarias faz parte do roteiro, sobretudo sob o abraço caprichoso de um estimulante luar. Existe ainda a Pousada do Lopes, mas o custo da hospedagem é salgado.


Em Lençóis, encontramos os nativos agitados, com a atenção voltada para a Festa de São Sebastião, legítimo padroeiro do lugar. Diz lenda bastante conhecida no Maranhão que, após a derrota do rei português Dom Sebastião, em Alcácer-Quibir, nas areias desertas do Marrocos, no século XVI, ele teria se encantado em Lençóis na forma de um touro negro que aparece nas morrarias na noite de São João. O sebastianismo se espalhou pelas colônias portuguesas ao redor do mundo e representa uma catarse. Portugal, após a morte do rei, foi anexado à Espanha. Por conta da crise política, social e econômica, o povo encontrou, na idéia do encantamento de Dom Sebastião, que regressaria para salvar seu povo do domínio estrangeiro, uma espécie de esperança para os seus dias difíceis. A crença teria chegado dessa forma à Ilha dos Lençóis. No local, existe um terreiro de Tambor de Mina, e os mineiros cultuam Dom Sebastião, afirmando que os gázeos (albinos) presentes ali seriam filhos dele, que permanece encantado na Ilha. Depois de se acostumar com o linguajar do lugar, certos segredos costumam ser desvelados.

A origem dos albinos
O povoamento da Ilha dos Lençóis começou a partir do ano de 1900, quando pescadores começaram a construir seus ranchos no local, cavando poços e encontarndo água doce. Uma das primeiras moradoras era dona Sebastiana Silva, filha de um português com uma albina. Dona Sebastiana teve quatro netas albinas, as primeiras nascidas na Ilha. Casamentos endogâmicos, entre primos, acentuaram o processo de albinismo, que na Ilha é uma referência global. Hoje, cerca de 3% da população de Lençóis é albina, algo em torno de cerca de 15 pessoas. No rol do sensacionalismo, no início da década de oitenta do século passado, a revista Manchete, em matéria sobre o local, denominou os albinos de Filhos da Lua. Essa denominação, contudo, não é aceita pelos próprios moradores.

Com relação ao sebastianismo, a pesquisadora Madian Frazão Pereira, autora da tese de mestrado em Antropologia pela Universidade Federal do Pará, intitulada “O Imaginário Fantástico da Ilha dos Lençóis: Estudo sobre a Construção da Identidade Albina numa Ilha Maranhense”, explica que “existem várias versões para explicar a origem da lenda; aquela que é mais difundida diz respeito ao fato de que as dunas de Lençóis se assemelham às dunas do deserto de Alcácer-Quibir, no Marrocos. Diz a lenda que ele não teria morrido naquela batalha, teria atravessado o Atlântico e se encantado numa Ilha, no caso, a ilha dos Lençóis, por conta dessa mitogeografia. Existem ainda as re-significações, envolvidas com a questão da encantaria, que afirma que São Luís foi criada ao mesmo tempo que a Ilha dos Lençóis, daí surgindo uma inter-ligação entre ambas. Então, segundo essa versão, no dia em que alguém revestido de coragem ferir de morte, na testa, o touro encantado, o rei Dom Sebastião retornaria para assumir novamente seu reino, ali, e a Ilha de São Luís iria ao fundo. Afora tudo isso, não se deve apenas ver o local sob o aspecto exótico, mas entender que na ilha vivem pessoas que necessitam de ajuda, pois vivem ali de forma difícil, os albinos, por exemplo, caminhando sob o sol sem proteção quanto aos raios do sol”. As políticas públicas, de fato, apesar das promessas, ainda não chegaram de fato ao local, que está sem energia (fornecida por um motor a óleo), pois os postes de madeira estão no chão.


No último dia da festa, um deles caiu sobre a cerca da pousada do finado Lopes, quase atingindo a construção, e por sorte não atingiu alguém. A população reclama bastante de assistência médica de qualidade, pois o posto de saúde está deteriorado e somente um enfermeiro se apresenta, realizando, inclusive, exames preventivos… Existe a promessa de implantação de um sistema alternativo de energia, híbrido, mesclando energia solar, eólica e à base de biodiesel, mas o projeto ainda não saiu do papel.

Reggae, pra que te quero?
A festa de São Sebastião, realizada tradicionalmente no dia 20 de janeiro, só foi de fato comemorada no dia certo no terreiro de seu Zé Mário, 70 anos, que é filho de santo de Pai Euclides, da Casa Fanti-Ashanti, de São Luís, pois ele se encontra adoentado. Houve toque de mina a partir das 10 da noite, entrando pela madrugada. Seu Zé Mário, que é nascido e criado na Ilha, trabalha no terreiro há mais de 25 anos. Antes, duas tias dele também possuíam terreiro na ilha, dona Raimunda Silva e dona Vicência Silva, iniciadas por dona Constância, mãe de santo também conhecida como dona Cocota, que trabalhava com a cura. Esta, por sua vez, foi iniciada por dona Honória, de um povoado chamado Assobe. A tradição do toque de mina na Festa de São Sebastião é antiga na Ilha. Uma semana depois, no dia 26 de janeiro, a festa fora de época foi comemorada, com uma radiola de reggae tocando sem parar durante três dias.

No sábado, 27, aconteceu procissão ao final da tarde, saindo a mesma da igrejinha do lugar; o cortejo percorreu vários caminhos do povoado, retornando finalmente ao templo. Em seguida, nova ladainha e, no domingo, 28, foi realizado o derrubamento do mastro, seguido por ladainha. Á noite, o reggae continuou, entrando pela madrugada. A presença do reggae nas festas religiosas tradicionais tem abafado a tradição. Nem mesmo durante a procissão a radiola deixa de tocar, numa clara falta de respeito aos fiéis, sendo notada uma presença cada vez menor de pessoas participando da parte religiosa da festividade. Trata-se de um fenômeno que se observa em todos os recantos do Maranhão, o que revela uma modificação radical no sentido original da tradição. Na maioria dos lugares, o poder público patrocina essa descaracterização. A parte profana sempre esteve presente nas festividades, mas o lugar do sagrado perde terreno a olhos vistos, o que poderá provocar o desaparecimento do verdadeiro significado que motivou a celebração de fundo religioso. Até Dom Sebastião, pelo visto, não suportou o barulho, como afirmam alguns nativos.

Lençóis ainda guarda segredos, mas eles estão sobrevivendo sem o devido cuidado. Os mais antigos dizem que El Rei Dom Sebastião já se mudou de Lençóis, pois ele não gosta de muita zoada, tendo se mudado para lugares mais ermos do arquipélago no qual se insere a Ilha encantada. Embora tal discurso não seja homogêneo no seio da comunidade, pois como afirma seu Zé Mário, “isto tudo aqui é uma coisa só; no mundo do fundo isto aqui está interligado, e Dom Sebastião pode até ter se mudado para mais longe, mas tudo aqui é encantado, e ele continua olhando sua Ilha. A filha dele, a princesa Jarina, por exemplo, fica aqui o tempo todo”. As narrativas em torno da lenda vão sendo constantemente reelaboradas, de acordo com as circunstâncias. A ilha pertence à Reserva Extrativista Marinha de Cururupu, e o turismo vem sendo apontado como o grande filão do local, tendo a cultura como lastro. Essas novidades já provocaram alterações no comportamento dos moradores, e uma nova feição começa a se formar. Que El Rei Dom Sebastião não desista de Lençóis e proteja esse paraíso contra a ganância dos bárbaros.