POR OSWALDO VIVIANI

‘OPERAÇÃO GALÁTICOS’ EM IMPERATRIZ

Acima, o delegado Pedro Roberto Meireles Lopes, que chefiou a ‘Operação Galáticos’

Organizados em células criminosas, os ‘piratas’ da internet invadiam contas bancárias e desviavam grandes quantias de dinheiro. Eles próprios se autodenominavam ‘galáticos’, pois julgavam-se ‘estrelas’ intocáveis e ostentavam os bens adquiridos ilegalmente.

Uma megaoperação da Polícia Federal (PF) em Imperatriz – que envolveu cerca de 400 policiais de nove estados e até soldados do Exército e três aviões Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) – resultou na prisão, até o final da tarde de ontem, de mais de 50 pessoas, entre suspeitos de serem “hackers” (“piratas” da internet que “invadem” contas bancárias) e “laranjas” (que “emprestam” suas contas para serem usadas nas transferências de valores).

Mais de 15 empresas imperatrizenses estão envolvidas no esquema criminoso – o maior envolvendo a internet “estourado” no país até hoje, segundo a Polícia Federal –, mas nenhum empresário foi preso até agora. Computadores e documentos também foram apreendidos. O banco preferido pelos “hackers” para desviar dinheiro era a Caixa Econômica Federal (CEF). A Polícia Federal ainda não calculou o montante desviado.

A ação da PF foi denominada “Operação Galáticos”, pois os próprios “hackers” assim se autodenominavam. Segundo o delegado Pedro Roberto Meireles Lopes, que comandou a operação, os “galáticos” julgavam-se “estrelas” intocáveis (como os “galáticos” do time de futebol do Real Madri) e faziam questão de ostentar os bens adquiridos ilegalmente – principalmente carros de luxo.

Operação de guerra – A “Galáticos” – uma verdadeira operação de guerra – começou logo nas primeiras horas da manhã de ontem, causando grande alvoroço em vários bairros de Imperatriz, com viaturas da Polícia Federal percorrendo as ruas em alta velocidade, com a missão de fazer cumprir os 70 mandados de prisão, decretados pelo juiz federal Lucas Rosendo Máximo de Araújo, contra os acusados (45 de prisão temporária e 25 de preventiva). Várias casas e prédios de apartamentos da cidade foram cercados para que as detenções fossem realizadas. Dois dos acusados, embora moradores de Imperatriz, foram presos em São Luís. Enquanto as viaturas da PF “cantavam pneu” nas ruas de Imperatriz, três aviões Hércules da FAB davam “rasantes” nos locais em que aconteciam as ações, deixando muitos moradores apreensivos. Aos militares do 50º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS) coube a tarefa de bloquear possíveis rotas de fuga.

Policiais de São Paulo, Pará, Piauí, Distrito Federal, Ceará, Paraíba, Tocantins e Pernambuco se juntaram aos agentes federais maranhenses na operação, que foi acompanhada de perto pelo superintendente da PF no Estado, Gustavo Ferraz Gominho.

Vírus “espião” – Em entrevista coletiva à imprensa na manhã de ontem, o delegado Pedro Lopes afirmou que a organização criminosa se dividia em várias “células”, cada uma com seus “hackers” (invasores de contas), “laranjas” (titulares das contas para as quais o dinheiro era transferido) e empresários (beneficiados com boletos bancários fraudulentos e com o pagamento de contas pelo sistema “on-line”). Até celulares pré-pagos eram recarregados pelos “invasores”.

Segundo o delegado da PF, a invasão dos “hackers” era possibilitada com a implantação no computador do correntista de um “spyware” (vírus “espião”), por meio de um “spam” (mensagem não solicitada que chega pelo “e-mail”) ou do “site” de relacionamento Orkut. Com o “espião” ativado, assim que o correntista abre seu banco “on-line”, todos os seus dados pessoais (inclusive sua senha) são copiados e chegam até o remetente do “e-mail” (o “hacker”).

Com os dados em mãos, o “hacker” transfere o dinheiro do correntista “invadido” para a conta de “laranjas”, previamente recrutados. Trata-se, geralmente, de pessoas humildes, que são cooptadas (na maioria das vezes, sem saber que estão participando de um crime) em troca de pequenas gratificações em dinheiro (R$ 150, em média).

Participação de empresários – A “Operação Galáticos” deve continuar até que todos os 70 mandados de prisão decretados pelo juiz federal Lucas de Araújo sejam cumpridos.

O superintendente da Polícia Federal do Maranhão, Gustavo Ferraz Gominho, afirmou à sucursal do Jornal Pequeno de Imperatriz que, assim que a PF tiver a “comprovação plena” da participação de empresários imperatrizenses no esquema criminoso dos “hackers”, eles serão presos e seus nomes (e os de suas empresas), divulgados.

Todos os suspeitos detidos na “Operação Galáticos” que têm prisão preventiva decretada serão ouvidos pela Polícia Federal em Imperatriz e transferidos (provavelmente ainda hoje) para um presídio localizado na cidade de Augustinópolis (no estado do Tocantins).

Os que tiverem participação comprovada na “máfia dos hackers” responderão pelos crimes de furto mediante fraude, formação de quadrilha, violação de sigilo bancário, interceptação telemática ilegal e lavagem de dinheiro.

Acusados são filhos da classe média alta de Imperatriz

O delegado Pedro Roberto Meireles Lopes não revelou os nomes de todos os presos na “Operação Galáticos”. Ele argumentou que era para não atrapalhar o restante da ação, que ontem à tarde ainda estava em pleno curso.

Mas ele apontou como dois dos principais líderes dos “hackers” os estudantes Arley Barbosa Gonzaga, de 28 anos, e Thaíse Araújo Ribeiro, 21, ambos filhos da classe média alta imperatrizense.

Segundo consta em sua ficha na Polícia Federal, Arley, o “Palito” (morador da rua Dom Vital, 241, Vila Lobão), além de já ter sido denunciado por transferências ilegais de dinheiro pela internet, também está envolvido com o tráfico de drogas. Seus parceiros de crime foram identificados pela Polícia Federal pelos prenomes Lívio, Juan, Joel, Davi, Elder e Elton.

Thaíse Ribeiro, moradora da rua Simplício Moreira, 1793 (centro de Imperatriz), de acordo com a PF, dividia com o namorado Jean Cláudio a liderança de um das “células” de “hackers” desbaratadas na operação de ontem.

A “célula” funcionaria na própria residência da acusada, onde, segundo denúncias anônimas, “era grande a movimentação de jovens conduzindo carros de luxo”. A própria Thaíse, uma estudante sem trabalho formal, possuía quatro “carrões”, segundo a Polícia Federal.