Os participantes do Seminário Internacional do Bioma Cerrado, realizado em Balsas, subscreveram um manifesto solidarizando-se com o bispo da Diocese de Caxias, dom Luís D´Andrea, e com o pároco de Parnarama, padre Eliezer, que estão impedidos de visitar as 33 famílias despejadas pela Polícia do ex-povoado Fazendinha, município de Parnarama. O Juiz da comarca de Parnarama, Celso Pinheiro Júnior, expediu um mandado de manutenção de posse, reintegrando José Carlos Nobre Monteiro nos 3,23 mil hectares da Fazenda Tremendal, adquirida do fazendeiro Simão Barbosa Carvalho. Dom Luís e o padre Eliezer assistiam espiritualmente os lavradores despejados, abastecendo-os com cestas básicas. Entre os signatários encontram-se Leonardo Boff, dom Franco Mosserdotti-bispo de Balsas, dom Xavier Gilles-bispo de Viana, e mais 40 religiosos e lideranças sindicais do Maranhão, Tocantins e Pará.

O “Interdito Proibitório” expedido pelo juiz de Parnarama materializou-se sem que dom Luís e o padre Eliezer fossem ouvidos em audiência de justificação. O juiz fundamentou-se na argumentação do advogado de José Carlos Nobre Monteiro, residente em Bacabal, que responsabilizou dom Luis e o padre Eliezer de incentivarem as 33 famílias para retornar as terras onde se localizava o povoado Fazendinha, destruído por tratores, por se encontrar supostamente localizado na área por ele comprada.

As famílias residiam há mais de 60 anos no povoado Fazendinha e conviviam pacificamente com o antigo proprietário Simão Barbosa de Carvalho que cobrava de cada uma delas 60 quilos de arroz anualmente por cada linha. A data Tanque em que está encravada a Fazenda Tremendal se estende por sete mil hectares, porém Barbosa Carvalho só possui a documentação de cinco mil, dos quais 3,23 mil hectares vendeu a José Carlos. Não se sabe qual a área devidamente legalizada em nome de Barbosa Carvalho, porque existe a versão de que ela se constitui de terras devolutas e pertencentes a ausentes desconhecidos e que as 33 famílias são posseiros de mais de três gerações.

O município de Parnarama situa-se numa área de transição da região dos cocais para a do cerrado. Nestes últimos anos, pecuaristas e produtores rurais passaram a comprar terras naquela região e agora também produtores de soja vêm se interessando em se implantar ali em alta escala, assim como fizeram no final dos anos 70 e início da década de 80 em Balsas. No Baixo Parnaíba, a monocultura de soja chegou a menos de 10 anos, causando impacto ecológico e êxodo rural.

Entre 2003 e 2004, o agro-negócio foi bastante fortalecido, porque é responsável por grande parte das exportações brasileiras. Porém, a agricultura familiar abastece o mercado interno brasileiro com “70% de feijão, 84% da mandioca, 58% dos suínos, 54% da bovinocultura de leite, 49% do milho e 40% das aves e dos ovos; enquanto a média propriedade, com 26,4% e o latifúndio, com 11,2%. A produção leiteira depende da pecuária familiar em 71,5% e o latifúndio produz apenas 1,9% do leite consumido no Brasil”. Estes dados foram expostos no Seminário do Bioma Cerrado, em Balsas, no período de 7 a 10 deste mês de julho.

Nos municípios de Parnarama e Matões, dezenas de povoados foram destruídos com a chegada dos agro-pecuaristas na região. A população da zona rural dos dois municípios convivia em harmonia com os antigos proprietários, que mantinham a criação de animais no modelo extensivo, cobrando renda dos seus moradores. Esses pecuaristas recém-chegados, ao comprarem as terras, exigem recebê-las “limpas”, isto é, desocupadas. Para atendê-los, os antigos proprietários participam do despejo dos seus moradores, concorrendo para inchar as periferias de Parnarama, Matões, Caxias e Timon.

É trágico o destino dos lavradores despejados, como foi o caso de José Gomes da Silva, o Rochinha, que, depois de perambular nas grandes fazendas do Sul do Pará e rodar bateias nos garimpos, colhendo apenas desilusão, retornou a Parnarama e não tendo mais onde trabalhar, sentiu-se profundamente humilhado, porque sua mulher sustentava a família na sua atividade de empregada doméstica. Desesperado Rochinha suicidou-se, deixando o seguinte bilhete: “Preta, sei que não te vejo mais, mas quero que você me perdoe. Meus filhos, eu entrego nas mãos de Deus e peço desculpa por não ter sido um bom pai e um bom marido para você. Peço que você me perdoe e aqui eu me entrego ao meu Anjo da Guarda nas mãos de Deus e me despeço de todos os meus amigos, pois está chegada a minha última hora. Adeus! Até o dia de Juízo e deixo meu abraço para todos vocês. Assina João Gomes da Silva, o Rochinha”.

As 33 famílias de Fazendinha estão acuadas em terras cujas origens se levantam dúvidas quanto ao direito de propriedade de José Carlos Nobre. Os movimentos sociais que defendem os lavradores constataram que José Carlos está com uma ação de “Retificação de Área”, querendo anexar à sua terra de ausentes e desconhecidos. Em maio deste ano, quatro policiais, em companhia do gerente de José Carlos, intimidaram e ameaçaram as famílias com rajadas de tiros no acampamento que foi levantado justamente dentro de terras de ausentes desconhecidos. Para culminar, o juiz concedeu um “Interdito Proibitório”, impedindo dom Luís D´Andrea e o padre Eliezer de visitarem as famílias famintas e ajudá-las.

A decisão do juiz de Parnarama ganha dimensão nacional e internacional ao proibir os religiosos de assistirem os humildes e desesperados lavradores que se encontram sem perspectiva de sequer alimentar seus familiares, como João Gomes da Silva, o Rochinha, que se matou pedindo perdão, porque não tinha meio de sustentar sua família. Porém, há tempo para o juiz pelo menos ouvir dom Luís e o padre Eliezer, porque o que consta é que ambos apenas socorriam com cestas básicas as famílias que não têm onde plantar. Será que exista lei proibindo socorrer famílias famintas?